Responsável Científico: Dr. António Rei / al-Hassan Shamsuddin

I. 1. A Arábia pré-islâmica

            O Islão (Islâm) surgiu na Península Arábica. Península desértica, era povoada por tribos nómadas ou semi-nómadas, que tinham, como centro ‘nacional’ a cidade de Meca (Makka). Cada uma sob a direcção de um Chefe ou Ancião (Shaykh), não estavam, no entanto, organizadas entre si sob qualquer forma estatal. Unia-as uma origem comum que remontava a Ismael (Isma’îl), o primogénito de Abraão (Ibrâhîm).    

            Em cada ano, nas épocas das ‘tréguas sagradas’ (respectivamente os meses de Rajab, Dhû l-Qa‘dah, Dhû l-Hijjah e Muharram), as tribos afluíam a Meca. Aí se congregavam e durante esse período eram por vezes estabelecidos acordos e pactos entre elas, os quais eram, muitas vezes, selados através de casamentos entre membros das diferentes tribos intervenientes. A trégua servia também para que as diferentes tribos rendessem culto às suas diversas divindades tutelares, pois os árabes pré-islâmicos eram idólatras.

            Os habitantes da cidade de Meca eram, na sua grande maioria, mercadores. Tinham por costume irem, em caravanas, no Verão à Síria e no Inverno ao Iémen, estabelecer negócios e adquirir bens que depois vendiam aos nómadas, durante o ajuntamento destes em Meca, na trégua.

            O clã dominante na cidade de Meca era o dos Quraichitas, e dentro destes a família que governara a cidade, nas últimas décadas antes do ano 570 da era cristã, fora a dos Banû Hâshim.

I. 2. Muhammad (as bênçãos e a paz de Deus estejam sobre ele)

            I. 2. 1. Origens e infância

            Pertencente àquela família dos Banû Hâshim nasceu, naquele ano de 570, um menino, já órfão de pai quando do seu nascimento, e a quem o seu avô paterno e prestigiado governante de Meca, ‘Abd al-Muttalib, deu o nome, então desconhecido entre os árabes, de MUHAMMAD, significando em árabe, ‘o digno de louvor’.

            Foi criado entre os nómadas do deserto, quando criança pequena, pela sua mãe de leite, também ela uma nómada. Continuou ainda a viver com os nómadas mais algum tempo depois da morte da sua verdadeira mãe.

            Quando regressou a Meca, foi criado e protegido, como se de um filho se tratasse, por seu avô ‘Abd al-Muttalib e, após a morte deste, pelo seu tio Abû Tâlib.

            Será com este último que ele, já na sua juventude, fará as suas primeiras participações nas caravanas anuais que o seu clã organizava.

            I. 2. 2. O mercador digno de confiança

            Mais tarde, entrou ao serviço de uma viúva rica que era também mulher de negócios. Chamava-se Khadîja. Após alguns anos a dirigir-lhe os negócios, Muhammad e Khadîja acabaram por casar. Do seu casamento nasceram seis filhos, dois rapazes Qâsim e ‘Abd Allâh; e quatro raparigas: Zaynab, Ruqayya Umm Kulthûm e Fâtima.

            Muhammad era um homem íntegro e honesto, sendo por isso conhecido em Meca como ‘al-Amîn’ (o digno de confiança). A ele recorriam as pessoas que, indo de viagem, lhe deixavam os seus bens mais preciosos; ou aquelas que lhe pediam a sua intercessão em qualquer assunto de difícil resolução. A todos tratava gentilmente, sem jamais ter defraudado quem quer que fosse, nem nos seus bens nem nas suas expectativas.

            Tinha ainda por costume isolar-se uma vez por ano, numa gruta nos arredores de Meca, durante todo o mês de Ramadân (Ramadão), em retiro e meditação.

            I. 2. 3. O Mensageiro de Deus, Selo da Profecia

            Num destes retiros, quando contava quarenta anos, na noite do dia 27 do mês de Ramadão, apareceu-lhe o Arcanjo Gabriel (Sayyidinâ Jibrîl) que lhe comunicou, da parte de Deus (Allâh), que ele era o último dos Profetas e dos Mensageiros, e nesse mesmo encontro começou a transmitir-lhe o al-Qur’ân (Alcorão).

            A revelação progressiva do Alcorão prolongar-se-á durante um período de cerca de vinte e três anos, até poucos meses antes da morte do Profeta Muhammad.

            As primeiras pessoas que se tornaram muçulmanas (submissas a Deus) e aceitaram a sua Mensagem foram a sua esposa Khadîja, o seu amigo e também ele mercador, Abû Bakr, e o seu primo ‘Alî, que naquela altura era ainda uma criança.

           Desde então e durante a dúzia de anos que a primeira comunidade islâmica permaneceu em Meca e arredores, o número de muçulmanos não parou de aumentar, tanto através de gente de condição humilde e de escravos, como também através da conversão de alguns quraichitas proeminentes, como Hamzah, ‘Uthmân ou ‘Umar, para apenas citar alguns.

          Ao fim de doze anos em que os muçulmanos tiveram que aguentar a repressão e a violência dos dirigentes quraichitas de Meca, deu-se finalmente a Hégira (Hijra): a emigração da comunidade islâmica original de Meca para Yathrîb.

            A primeira estrutura social islâmica veio a constituir-se nesta última cidade, e, em consequência disso a partir daquele momento passou a ser conhecida pelo nome de ‘Madînat un-Nabî’ (a Cidade do Profeta) ou de ‘Madînat ul-Munawwara’ (a Cidade Luminosa ou a Cidade que irradia Luz) (em português, cidade de Medina).        

         Se durante o período em que os muçulmanos estiveram em Meca as revelações do Alcorão incidiram principalmente na consolidação e no fortalecimento da crença (Imân), as revelações que ocorreram em Medina acentuaram o caracter normativo e ético, visto existir, desde a Hégira, uma primeira comunidade islâmica auto-governando-se, e simultaneamente constituindo-se como o padrão islâmico de sociedade.

           Depois da Hégira a relação entre os idólatras de Meca e os muçulmanos de Medina não se tornou pacífica, antes pelo contrário, recrudesceu em violência. A guerra que se estabeleceu entre eles prolongou-se por vários anos, tendo terminado com a vitória dos muçulmanos, no ano 8 da Hégira, ao conquistarem finalmente a cidade de Meca.

             Poucos meses após a chamada ‘Peregrinação do Adeus’, o Profeta Muhammad veio a falecer em Medina, aos 63 anos de idade, no ano 10 da Hégira / 632 da era cristã.

            I. 3. Os valores básicos do Islão

            A Mensagem que o Profeta Muhammad deixou assenta em doze princípios: sete valores fundamentais de crença:

            - a Unidade Divina; a existência de Anjos; os Livros Revelados; a existência de Mensageiros; o Último Dia; o Decreto Divino; e a Balança.

            E cinco rituais obrigatórios ou ‘pilares’: afirmar que ‘Não há outra divindade além de Deus, e que Muhammad é o Mensageiro de Deus’; as cinco orações diárias obrigatórias; dar anualmente 2,5% da riqueza acumulada durante esse ano; jejuar o mês de Ramadão; peregrinar a Meca, pelo menos uma vez na vida, se possível.

            Se a isto juntarmos o não comer carne de porco ou de animais não sacrificados; o não beber bebidas alcoólicas; o não cometer adultério; o não roubar e o não mentir, ficamos com as linhas gerais do modelo que cada muçulmano deve buscar pôr em prática cada dia da sua vida, e de que o exemplo máximo é o próprio Profeta Muhammad.

            I. 4. A Expansão territorial do Islão

            Após a morte do Profeta Muhammad o território do Islão era pouco mais do que o Hijaz, a região média ocidental da Península Arábica, onde se situam as cidades de Meca e de Medina.

            Foi durante os califados dos Quatro Califas Bem-Guiados (al-Khulafâ’ ar-Rashidûn) que se iniciou a expansão.

            No califado de Abû Bakr, o 1º Califa, deu-se a submissão do restante da Península Arábica, mas foi no tempo do 2º Califa, ‘Umar ibn al-Khattâb, que a expansão islâmica extravasou para além dos limites geográficos daquela península: o Shâm (região que compreendia os actuais Síria, Líbano, Jordânia e Palestina), até então parte do Império Bizantino, foi conquistado em consequência da vitória dos muçulmanos na batalha de Yarmuk, em 636; a Mesopotâmia foi ocupada pelos muçulmanos, e o Império Persa cai e desaparece tudo após a batalha de Nehâvend, em 642.

            Nessa mesma altura, o comandante do exército islâmico estacionada em Damasco acabava de incorporar ás terras do Islão, o Egipto e a Cirenaica.    

            Nos caifados de ‘Uthmân e ‘Alî, respectivamente os 3º e 4º Califas, a expansão continuou tendo sido ocupada a Arménia.

            Mas será posteriormente, sob a dinastia dos Omíadas, que o território islâmico, todo sob a autoridade de um só soberano, atingirá a sua máxima extensão.

          Para Oriente: submetida a Pérsia, é ocupado o Afeganistão em 651 e a Transoxiana em 674; o Islão expande-se no Turquestão chinês e em 711 eram integrados também o Sind e o Pandjâb, na península indostânica. 

            Para Ocidente: expansão em direcção à Tripolitânia, e início da conquista do Magrebe; foi fundada a cidade de Qayrawân, em 670; submissão definitiva do Norte de África, entre os anos 697 e 707; entrada dos exércitos islâmicos na Península Ibérica, sob o comando de Târiq ibn Ziyâd, em 711.

            Menos de oitenta anos depois da morte do Mensageiro de Deus, a Mensagem do Islão expandira-se no mundo, atingindo um espaço que ía da China aos Pirinéus.

I. 5. A chegada do Islão a al-Andalus

            I. 5. 1. A entrada dos muçulmanos   

            Cumprindo ordens do governador de Ifrîqya, Mûsâ ibn Nusayr, o seu liberto Tarîf, com quatrocentos homens, fez uma primeira exploração no sul de al-Andalus, no ano de 91 / 710. Em consequência dos resultados obtidos naquela primeira expedição militar, no ano seguinte (92 / 711), Târiq ibn Ziyâd, entrou na Península Ibérica comandando um exército de muçulmanos, com cerca de sete mil homens.

            Esta deslocação dos muçulmanos, inicialmente destinava-se a satisfazer um desejo de reparação que o governador cristão de Ceuta, de nome Julião, pretenderia tirar do monarca visigodo, chamado Rodrigo, e pela razão principal deste rei ter abusado sexualmente da filha do mesmo Julião.

            Estando Rodrigo no norte da Península quando lhe chegou a notícia de que aquele exército passara o estreito, reuniu o maior exército que conseguiu, e dirigiu-se directamente para o sul sem passar por Toledo, a cidade capital da monarquia visigótica. 

            Tendo-se encontrado os dois exércitos num local chamado Lago ou Guadalete, aí teve lugar a batalha, que ficou conhecida principalmente por aquele último nome. Apesar de ter um exército muito mais numeroso que o dos muçulmanos, o facto de ter sido abandonado e atraiçoado, já durante a batalha, por outros nobres visigodos que o acompanhavam, fez com que o exército de Rodrigo se desorganizasse e os muçulmanos tivessem obtido uma enorme vitória sobre os visigodos.

            O rei Rodrigo desapareceu nesta batalha, sem que tivesse vindo a ser encontrado, morto ou vivo, no campo de combate ou fora dele.

            I. 5. 2. A conquista do Reino dos Visigodos

            Târiq ibn Ziyâd, depois daquela batalha dirigiu-se com o seu exército a Ecija, onde ainda encontraram uma vigorosa resistência que, no entanto, conseguiram levar de vencida. Em Ecija e após a vitória, Târiq dividiu as suas forças em vários contingentes, e enviou um para a região de Málaga, outro para a região de Granada, e ele mesmo chefiou um terceiro, constituído pelo grosso das tropas, e com o qual se dirigiu a Toledo, a capital do reino.

            Os seus lugares-tenentes submeteram pela força das armas as regiões de Málaga e Granada.

            Dirigindo-se em seguida mais para leste, chegaram a uma região dominada por um senhor visigodo chamado Teodomiro. Este senhor não enfrentou os muçulmanos de armas na mão, antes entrou em negociações com eles e estabeleceu um pacto com eles. Aceitando a autoridade dos muçulmanos, e comprometendo-se a não auxiliar os adversários do Islão, foram-lhe deixados a eles e aos seus súbditos a totalidade dos bens, para além de poderem continuar a reger-se pelas suas leis e a praticar a religião cristã. Devido a este pacto aquela região ficou até muito tarde conhecida por Tudmir, transcrição árabe do nome daquele senhor.

            Enquanto isso, Târiq tinha conquistado Toledo, que ocupou militarmente, e dirigira-se para uma praça fortificada onde se encontrava uma mesa que pertencera ao rei Salomão, filho do rei David, e daí este lugar ter ficado conhecido por al-Mâ’ida (Almeida), ou seja a Mesa. Indo finalmente a uma cidade chamada Amaya, onde encontrou um rico botim e onde passou o inverno tendo regressado a Toledo apenas no ano seguinte, de 93 / 712.

            Naquele mesmo ano Mûsâ ibn Nusayr, o próprio governador de Ifrîqya, informado do sucesso da campanha de Târiq, resolveu vir pessoalmente à frente de um outro corpo de tropas, à Península Ibérica. Chegado a Algeciras, resolveu seguir um itinerário diferente do que seguira Târiq. Dirigindo-se a Sevilha, de caminho tomou Medina Sidónia e Carmona. Depois de vários meses de cerco a Sevilha, conseguiu finalmente conquistá-la. Houve muitos cristãos que fugiram então para Beja. Depois da tomada de Sevilha dirigiu-se a Mérida, a qual cercou por um longo período. Conseguiram a sua posse, finalmente, no dia do ‘Îd al-Fitr do ano 94 / 713.

            Entretanto, os cristãos que tinham ficado em Sevilha, com o apoio de outros que tinham vindo de Niebla e de Beja, sublevaram-se contra a autoridade militar islâmica que Mûsâ tinha lá deixado, matando umas largas dezenas de soldados muçulmanos, e tomando o controle da cidade. Mûsâ, informado do sucedido, enviou desde Mérida um corpo de tropas comandado por seu filho ‘Abd al-‘Azîz, que conseguiram reconquistar Sevilha.  

            Pouco tempo depois Mûsâ e Târiq encontraram-se em Toledo, onde este último teve que relatar ao primeiro todos os passos dados na conquista do reino visigodo, bem como apresentar-lhe as principais peças do botim de guerra entretanto conseguido, e no qual predominava a famosa Mesa de Salomão. Mûsâ repreendeu ainda fortemente Târiq por este não se ter limitado estritamente às ordens que recebera.

            Depois deste encontro Mûsâ seguiu em direcção ao nordeste, indo conquistar Saragoça e demais cidades daquela região.

            Quando preparava seguidamente uma expedição à Galiza, recebeu uma ordem para se apresentar ante o califa al-Walîd, em Damasco.

            Pospôs essa viagem ao oriente e fez ainda essa incursão no noroeste peninsular. Tendo chegado algumas das suas tropas às Astúrias, região montanhosa onde se refugiavam muitos visigodos, embora sem consequências práticas, além da devastação provocada em bens e culturas, conseguiu Mûsâ, como feitos militares, no entanto, conquistar as fortalezas de Lugo e de Viseu.

            Tendo recebido uma segunda ordem do califa para abandonar a Península em seguida, seguiu para oriente, acompanhado de Târiq, em 95 / 714, não sem antes ter deixado como governador de al-Andalus o seu filho ‘Abd al-‘Azîz, e feito de Sevilha a sede do governo.

         

            I. 6. O emirado dependente de Damasco

            Durante cerca de meio século, entre 92 / 711 e 139 / 756 sucederam-se vinte e quatro governadores, dependentes dos Califas de Damasco.

            Nomeados e demitidos pelos Califas, representavam e actuavam, no entanto, no espaço ibérico, como os seus parentes e ancestrais o faziam ou tinham feito no oriente: as rivalidades entre tribos árabes do norte do sul mantinham-se a despeito do Islão, e por isso as intrigas e pressões junto dos Califas sucediam-se para que um dos seus fosse o governador de al-Andalus.           Se entre os árabes as coisa não eram pacíficas, também havia graves questões entre árabes e berberes, que tiveram consequências nefastas na década de 40 do século VIII.

            I. 6. 1.  A expansão na Gália Narbonense

            Os exércitos islâmicos entram em 102 / 720 na Gália, tendo sido detidos pelas forças do duque Eudes da Aquitânia, em Toulouse. Mais tarde este duque deu em casamento a sua filha ao chefe muçulmano, o berbere Munuza. Este Munuza revoltou-se em 111 / 729, contra as autoridades islâmicas, e buscou o apoio dos francos. O governador de al-Andalus, ‘Abd al-Rahmân ibn ‘Abd Allâh al-Ghafâqî, chefiando um exército interna-se, no ano 113 / 731 na Gália, pretendendo castigar o rebelde. Após ter conseguido acabar com a resistência de Munuza, que, em fuga, acaba perdendo a vida, o exército islâmico avança em direcção ao centro do reino dos Francos. Aí, em Poitiers, se deu o recontro entre aquele exército islâmico e o exército franco, chefiado por Carlos Martel, senhor da Austrásia. Com esta derrota termina definitivamente o avanço do Islão na Europa Ocidental.

    

            I. 6. 2. Nova organização de al-Andalus

            Já tem sido mesmo colocada a possibilidade de que ‘Abd al-‘Azîz ibn  Mûsâ, o terceiro governador, tenha optado por estabelecer uma política de acordos, com os senhores visigodos de certas regiões mais periféricas, em vez de os combater directamente, porque a instabilidade dentro dos exércitos islâmicos não lhe dava garantias de que essas empresas militares pudessem ser bem sucedidas.

            Assim, nem todos os espaços sob o domínio islâmico estavam pois, sendo governados directamente por muçulmanos. Para além da região de Orihuela, depois conhecida como Tudmir, já referida, outros espaços regionais houve onde os visigodos cristãos estabeleceram acordos com as autoridades islâmicas. No ocidente peninsular, as regiões de Coimbra, Santarém e Évora contam-se entre as regiões nessas circunstâncias.

            I. 6. 3. As revoltas berberes no norte peninsular

            Muitos dos berberes que se assentaram em al-Andalus fixaram-se a norte do rio Douro, em áreas bastante mais montanhosas e pobres do que aquelas em que se tinham estabelecido os árabes. A descriminação dos árabes em relação aos berberes terá vindo a dar origem a revoltas berberes no Norte de África. Seguindo o exemplo destes últimos, também os berberes no norte da Península Ibérica se revoltaram no ano 122 / 740, chegando a matar muitos árabes, o que fez com que o então governador, ‘Abd al-Malik ibn Qahtân, temendo o poder dos revoltosos, chamasse à Peninsula um exército de soldados sírios comandados por Balj. Estes conseguiram finalmente pôr fim à revolta, e como recompensa foram -lhes dados terrenos em várias regiões de al-Andalus: os de Hims, foram para a zona de Sevilha; os de Damasco, para a zona de Granada; e os do Egipto foram para as zonas de Niebla, Beja e Ocsónoba.   

            I. 6. 4.  Fim da dinastia Omíada

          Em 130 / 747, estalou na Pérsia uma revolta contra o poder dos Omíadas. Três anos mais tarde, a revolta triunfa, e o seu chefe Abû l-‘Abbâs, torna-se Califa, o primeiro dos Abácidas.

          Um omíada, chamado ‘Abd al-Rahmân ibn Mu‘awiya, que escapara a um massacre de toda a sua família, organizado por Abû l-‘Abbâs, chega a al-Andalus em 150 / 756, e veio a tornar-se no primeiro Emir independente de al-Andalus.   

1.7. Emirato Omíada Independente (138 / 756 - 317 / 929)

            I. 7. 1. ‘Abd al-Rahmân I (138 / 756 - 172 / 788)

            Tendo escapado ao massacre onde foi assassinada a grande maioria dos membros da sua família, este príncipe deambulou pelo norte de África, fugindo à perseguição dos homens de armas do novo regime abácida.

            Sendo a sua mãe uma berbere da tribo dos Nafza, acabou sendo entre as gentes desta tribo que conseguiu a protecção que buscava.

            Foi durante esta estadia no Norte de África que se criaram as condições para passar à Península Ibérica, então imersa em confrontos, por vezes violentos, entre Árabes do Norte ou Qaysitas, e Árabes do Sul ou Kalbitas.

            I. 7. 1. 1. A tomada do poder (136 / 755 - 138 / 757)

            ‘Abd al-Rahmân, atravessou o Estreito e pisou pela primeira vez o solo de al-Andalus no primeiro dia de Rabî‘ al-Awwal do ano 136 / 14 de Agosto de 755. Tendo falhado as negociações que inicialmente estabelecera com o então governador andalusi, Yûsuf al-Fihrî, o pretendente omíada conseguiu, no entanto, que alguns membros dos exércitos sírios, que tinham vindo para al-Andalus na década de 40 com Balj bin Bishr, assim como uma parte dos berberes se unissem aos kalbitas, que eram os seus principais apoiantes. Entre Shawwâl e Dhû l-HIjjah de 138 / Março e Maio de 756, ‘Abd al-Rahmân conquistou Sevilha e Córdova. Tendo entrado triunfalmente neste última cidade, fez-se proclamar Emir de al-Andalus na Mesquita-Mor de Córdova, e aí recebeu a obediência dos seus súbditos. Este príncipe conseguiu, naquele momento, unir suficientemente árabes, berberes, muladis (ibéricos islamizados) e moçárabes (cristãos arabizados), de forma a, além de tomar o poder, ainda subtrair o espaço ibérico à autoridade dos califas Abácidas de Bagdade. 

            I. 7. 1. 2. Primeiras revoltas contra o novo poder

          A momentânea pacificação esfumou-se em pouco tempo. No ano seguinte, 139 / 757, o antigo governador vencido Yûsuf al-Fihrî, a quem o novo Emir perdoara, apoiado pelo seu partidário al-Sumayl, revoltou-se contra ‘Abd al-Rahmân I. Yûsuf conseguiu recutar forças em Toledo, e al-Sumayl fez outro tanto em Jaén. Tendo o filho de al-Fihrî, Abû Zayd, chegado mesmo a dominar a cidade de Córdova, o sucesso da revolta foi, no entanto, efémero e o Emir acabou controlando a revolta, e de novo perduou aos revoltosos, que o acompanharam a Córdova. Durante alguns anos os antigos revoltosos viveram em Córdova, tendo chegado mesmo a tornarem-se próximos do próprio Emir. 

            Mas em 142 / 759-60, Yûsuf al-Fihrî voltou mais uma vez a revoltar-se. Dirigindo-se à cidade de Mérida, e alí conseguiu o apoio de cerca de duas dezenas de milhar de berberes. Mas acabou sendo derrotado pelas forças conjuntas dos governadores leais de Sevilha e Morón. Tendo fugido e deambulado pela região de Toledo acabou sendo morto por alguns dos seus antigos partidários.

            Um outro antigo partidário do antigo governador morto, Hishâm ibn ‘Urwa, três anos depois da morte daquele, em 145 / 762, rebelou-se novamente em Toledo, e governou aquela cidade e território durante cerca de dois anos, pois a revolta só acabou sendo sufocada em 147 / 764. Mais tarde, e ainda nos finais do reinado de ‘Abd al-Rahmân I, em 169 / 785, um último filho de Yûsuf al-Fihrî, voltou a revoltar-se, uma vez mais, a partir de Toledo. Mas também ele foi derrotado pelo Emir em pessoa.

            I. 7. 1. 3. As revoltas Yahsubitas no Gharb

            Inicialmente apoiantes de ‘Abd al-Rahmân I, os árabes kalbitas também acabaram, uns anos depois por se insurgirem contra o poder daquele que tinham ajudado a colocar no trono.

            O que torna estas revoltas ocorridas no Gharb diferentes das outras, é que enquanto as outras visaríam ou criar um poder regional; ou, na melhor das hipóteses, substituir o Emir em causa, pelo principal dos cabecilhas do movimento; das revoltas que tiveram o seu início no Gharb, principalmente a primeira, esteve ligada ao poder abácida, e visava o fim do poder de ‘Abd al-Rahmân e o seu desaparecimento, para que o al-Andalus voltasse a fazer parte do império dominado desde Bagdade. As revoltas seguintes são tentativas de vingança dos desaires anteriores. E foram os Yahsubitas, de origem kalbita, a principal das tribos árabes representada no ocidente peninsular, que chefiaram essas revoltas.

            I. 7. 1. 3.1. A sublevação de al-‘Alâ ibn Mughîth al-Yahsubî, em Beja

            Ainda a revolta de Hishâm ibn ‘Urwa não fora sufocada, e já no ano de 146 / 763 al-‘Alâ ibn Mughîth al-Yahsubî, grande senhor regional e comandante do jund (exército) estacionado em Beja, nessa mesma cidade iniciou um pronunciamento em nome do califa de Bagdade.

          Para a chefiar a revolta aquele homem fora investido na qualidade de governador de al-Andalus, através de um diploma, passado pelo califa Abû l-Ja‘far al-Mansûr. Al-‘Alâ vestiu-se de negro, levantou publicamente a bandeira negra dos abácidas, e fez com que o nome de al-Mansûr se pronunciasse na Khutba (prédica que antecede a oração das Sextas-Feiras). De entre os corpos de exército que chefiava bem como da população recebeu al-‘Alâ inúmeras adesões ao movimento de revolta.   

           Todos os senhores da mesma tribo yahsubita que habitavam a região a sul de Beja apoiaram o movimento, tendo-se o mesmo estendido desde Silves até Sevilha, e incluindo esta última cidade. Tendo-se enfrentado o exército revoltoso com o de ‘Abd al-Rahmân I algures entre Sevilha e Córdova, a batalha durou vários dias, e aí terão morrido cerca de sete mil homens. ‘Abd al-Rahmân ganhou a batalha e repôs, por pouco tempo, a ordem no ocidente peninsular.

            I. 7. 1. 3. 2. A revolta de Sa‘îd Yahsubî  al-Matarî, em Niebla

            Cerca de dois anos depois, em 149 / 766, um outro chefe yahsubita, Sa‘îd Yahsubî al-Matarî, senhor de Niebla, ali se levantou contra ‘Abd al-Rahmân I, sob o pretexto de vingar os seus parentes que tinham participado na sublevação de al-‘Alâ ibn Mughîth, e que tinham sido mortos pelo Emir.

            Sa‘îd al-Matarî assenhoreou-se de Sevilha, tendo recebido apoio de outros membros da sua tribo, aí residentes, e encontrou apoio num outro chefe kalbita, embora da tribo Lakhmida, o senhor de Sidónia, Ghiyâth ibn ‘Alqama al-Lakhmî.

            Tendo sido cercado por ‘Abd al-Rahmân I na fortaleza de Rawâk (Alcalá de Guadaira?), tentou escapar numa surtida, mas acabou Sa‘îd al-Matarî por encontrar a morte, e tendo os seus seguidores pedido logo a rendição. O senhor de Sidónia veio a capitular já depois da morte de Sa‘îd.

            I. 7. 1. 3. 3. A revolta de ‘Abd al-Ghaffâr al-Yahsubî, em Sevilha

            Durante alguns anos não voltou a haver sinais exteriores de rebelião no Gharb al-Andalus. Mas dentro dos membros da tribo continuava a ser alimentado o desejo de vingança.

            Em 157 / 773-4, ‘Abd al-Ghaffâr al-Yahsubî, senhor de Sevilha, levantou novamente a bandeira da revolta. Um facto prévio fora a gota que fizera novamente transbordar a taça. Um personagem prestigiado dentro da tribo yahsubita, Abû l-Sabbâh Yahyâ al-Yahsubî al-Yamânî, antigo governador de Ocsónoba e depois governador de Sevilha, o que equivalia a ser o governador de todo o ocidente peninsular, era o principal chefe daquela tribo. Fora um dos principais apoiantes de ‘Abd al-Rahmân quando este se lançou à conquista do poder. O poder que fora acumulando fez com que, em 156 / 773, Abû l-Sabbâh propusesse a ‘Abd al-Rahmân a repartição de al-Andalus: o leste para os Omíadas, e o oeste para os Yahsubitas. ‘Abd al-Rahmân convida Abû l-Sabbâh para um encontro onde se selaria o acordo, mas na realidade tratava-se de eliminar o chefe yahsubita, o que veio a acontecer.

            Os outros senhores yahsubitas, entre eles também os de Beja e Niebla, tradicionais assentamentos yahsubitas, como já vimos, ao saberem o que se passara, rebelaram-se sob a chefia do senhor de Sevilha, ‘Abd al-Ghffâr, primo do chefe assassinado.  

            Aproveitando que o Emir de Córdova se encontrava a braços com uma outra revolta, chefiada pelo berbere Shaqya ibn ‘Abd al-Wâhid, de que falaremos depois, ‘Abd al-Ghaffâr e os seus seguidores tentaram conquistar Córdova de surpresa. Mas ‘Abd al-Rahmân I regressou rapidamente e conseguiu abortar o intento dos yahsubitas, perseguindo-os em seguida, e inflingindo-lhes uma pesada e sangrenta derrota. Durante muito temponão se ouvirá falar dos Yahsubitas em al-Andalus, remetidos aos seus locais tradicionais.

            I. 7. 1. 4. A revolta de Shaqya ibn ‘Abd al-Wâhid

            Este berbere, em dado momento da sua vida, talvez por ambição e por algum assomo místico, originou um movimento que causou a mais longa instabilidade do reinado de ‘Abd al-Rahmân I, prolongando-se de 151 / 768 a 160 / 776-7. Chamando-se a mãe de Shaqya, Fátima, apresentava-se como um Imâm (líder espiritual) descendente de Fátima, a filha do Profeta Muhammad. Pregando uma regra puritana, próxima do Kharijismo (doutrina com muitos seguidores entre os berberes norte-africanos) encontrou muito eco entre os berberes que estavam em al-Andalus. Usando um sistema de guerrilha, e não de guerra aberta, chegou a dominar o espaço entre os rios Tejo e Guadiana, sabendo-se que para ocidente dominou pelo menos até Mérida. Foi morto em 160 / 777.      

            ‘Abd al-Rahmân I teve, como acabámos de ver, um reinado muito conturbado.

I. 7. 2. Hishâm I (172 / 788 - 180 / 796)

      I. 7. 2. 1. A consolidação do poder e as revoltas internas

      Tendo sucedido a seu pai, teve logo no início do seu curto reinado, que enfrentar dois dos seus irmãos, Sulaymân e ‘Abd Allâh, que lhe disputavam o poder, apesar de o falecido ‘Abd al-Rahmân ter escolhido expícita e publicamente Hishâm como seu sucessor.

      Vencidos os seus irmãos, que se expatriaram depois de derrotados, o reinado do segundo Emir de al-Andalus foi genericamente pacífico. Apenas se registou uma revolta em 172 / 788, em que um senhor chamado Sa‘îd ibn al-Husayna al-Ansârî, se apresentou como pretendente ao poder, tendo sido vencido. E já no final do reinado, em 179 / 795-6, foi a vez dos berberes que habitavam as serranias de Ronda se revoltarem contra o poder do Emir de Córdova, mas acabaram sendo duramente reprimidos, pois aquela zona acabou ficando praticamente deserta durante sete anos. 

      I. 7. 2. 2. Expedições militares contra o reino das Astúrias

      Se foi um período de paz social no interior do al-Andalus, foi também um período de grandes investidas militares no reino cristão das Astúrias. Houve periódicas aceifas (campanhs militares de Verão) em quase todos os anos do reinado de Hishâm: nos anos de 175 / 791, 176 / 792, 178 / 794 e 179 / 795, várias campanhas militares tiveram lugar, fazendo grandes razias nos campos e mantendo as forças cristãs em guarda. Depois daquela última data tiveram que passar mais do que duas décadas para que ocorressem novas entradas das forças islâmicas em território cristão. Foi em 200 / 816, e já no reinado do filho e sucesssor de Hishâm, al-Hakam.

 

      I. 7. 2. 3. Entrada da escola malikî em al-Andalus

      Este reinado foi contemporâneo da parte final da vida do Imâm Mâlik ibn Anas, que veio a falecer em 179 / 795-6 na cidade de Madîna al-Munawwara. Durante este período regressaram a al-Andalus vários andalusis que tinham estudado com aquele Mestre, entre os quais homens como Ziyâd ibn ‘Abd al-Rahmân Shabatûn, Yahyâ ibn Mudâr, ‘Issâ ibn Dinâr e, o mais famoso dentre eles, Yahyâ ibn Yahyâ al-Laythî. Chegados a al-Andalus começaram a ensinar as doutrinas de Mâlik ibn Anas com a aprovação expressa dos emires omíadas de Córdova. Essa divulgação foi de tal forma bem sucedida que o Emir al-Hakam, o sucesor de Hishâm, veio a adoptar aquela escola jurídica como escola oficial do regime omíada, e como tal se manteve até ao final do califado.     

      I. 7. 3.  Al-Hakam I (180 / 796 - 207 / 822)

      I. 7. 3. 1. As inúmeras revoltas do reinado

      Reinado extremamente conturbado por inúmeras revoltas originárias em vários sectores da sociedade, e onde a repressão das revoltas, por parte do Emir al-Hakam, foi por vezes demasiado extrema e rigorosa.

      No início do seu reinado teve que enfrentar as dos seus tios Sulaymân e ‘Abd Allâh, os mesmos que já se tinham rebelado contra seu pai. O segundo acaba por pactuar com al-Hakam, e o segundo acaba morto pelo fiel governador de Mérida, Asbagh ibn Wansus, cidade onde se refugiara.

      Várias revoltas no norte, a de Bahlûl ibn Marzûq em Saragoça (180 / 796) e em Huesca (184 / 800); a dos Banû Qasî, submetidos em 186 / 802; as várias revotas de Toledo, em 191 / 807; em 196 / 811-2 e 203 / 818-9.

      Mas os mais graves movimentos revoltosos de todo o reinado, tiveram lugar na própria capital, Córdova. A primeira foi uma conjura que envolveu setenta e dois personagens ilustres da sociedade cordovesa de então, e que buscavam derrubar al-Hakam, substituíndo-o por um primo chamado Muhammad ibn al-Qâsim. Descoberta a conspiração, foram todos aprisionados e depois condenados à morte, tendo sido todos crucificados ao longo das margens do Guadalquivir, no ano 189 / 805.

      Mas a mais tristemente célebre, mais alterosa e mais duramente reprimida foi a chamada “revolta do Arrabalde”, que teve lugar no ano de 202 / 818. Quantidade inumerável de mortos, durante as cargas das tropas fiéis a al-Hakam, e depois, os sobreviventes do massacre foram desterrados para o Norte de África e para o Oriente, tendo aquele Arrabalde sido depois todo demolido, e proibido de lá serem erigidas quaisquer tipo de construções.   

      I. 7. 3. 2. O avanço dos francos na Catalunha

      Desde finais do século VIII que vários chefes militares muçulmanos das zonas fronteiriças do norte peninsular tinham tido contactos com Carlos Magno e seu filho Luís da Aquitânia, a quem tinham pedido pontualmente ajuda. Estes contactos fizeram despertar o interesse dos francos em expandirem-se àquem-Pirinéus.

      Luís da Aquitânia veio a decidir o início dessas acções num Conselho realizado em Toulouse, no ano 182 / 798. As acções militares em causa vieram a incidir, essencialmente, sobre a região norte da actual Catalunha.

      O principal ganho dessas campanhas foi a conquista em 185 / 801 da cidade de Barcelona. Cercada desde 183 / 799, resistiu durante cerca de dois anos, em que, apesar de muito solicitados, não chegaram a receber reforços militares de Córdova.

      Depois de conquistada Barcelona, os francos tentaram conquistar Tortosa, por três vezes, entre 187 / 804 e 193 / 809. Não sendo bem sucedidos nas duas primeiras, vieram a conquistar momentaneamente Tortosa naquele último ano. A reacção militar de Córdova, neste momento não se fez esperar, e foi enviado um exército comandado pessoalmente pelo príncipe herdeiro ‘Abd al-Rahmân. Esse exército venceu os francos ainda naquele mesmo ano de 193 / 809, e os vencidos acabaram por retirar de Tortosa.

      Ainda em 199 / 815, um importante exército muçulmano comandado pelo omíada ‘Ubayd Allâh, primo do Emir de Córdova, tentou reconquistar Barcelona. Numa grande batalha, que teve lugar nas imediações de Barcelona, os muçulmanos obtiveram uma estrondosa e sangrenta vitória. No entanto, e apesar das enormes perdas de homens entre os francos, Barcelona não foi reintegrada no espaço islâmico.

      I. 7. 3. 3. A instabilidade no Gharb al-Andalus

      A instabilidade por que passou al-Andalus nos primeiros tempos do reinado de al-Hakam I, também teve as suas repercussões no ocidente peninsular.

     Logo no ano de 182 / 798 o monarca asturiano Afonso II atacou, conquistou e pilhou Lisboa. As referências a esta acção miliatar não nos falam em ocupação da cidade conquistada, mas apenas em conquista e pilhagem. Foi, portanto, uma expedição de razia, que visava pilhar e destruir, e não manter uma conquista. Um tipo de acção de cariz idêntico ao que se passará, mais de um século depois, com Évora.

      Nesta região do ocidente, um grande foco de instabilidade foi sempre a antiga capital da Lusitânia, Mérida.

      Os muladís (hispânicos islamizados) e os moçárabes (cristãos arabizados) desta cidade, assim como os berberes da região protagonizaram várias insubordinações contra o poder do Emir cordovês.

      Até o antes fiel governador de Mérida, Asbagh ibn Wansus, se revoltou contra a autoridade de Córdova, e chefiou a rebelião geral. Este primeiro estado de revolta durou cerca de sete anos, entre 190 / 805-6 e 197 / 813. Tendo al-Hakam I iniciado logo naquele primeiro ano as acções de repressão da revolta, a mesma manteve-se, e nem a morte de Asbagh ibn Wansus, em 192 / 807-8, alterou o estado de coisas. Só em 197 / 813 a cidade se rendeu. Uns anos depois, em 201 / 817, voltou a acontecer outro movimento revoltoso em Mérida, ainda que este momentâneo.

      Novamente em Lisboa, no ano de 193 / 808-9, irrompe um movimento insurrecionista. Chefiado por um personagem, chamado Tumlus. Não se sabe qual a sua origem, mas pelo nome poderia ser talvez um moçárabe ou um berbere. Em qualquer dos casos terá havido participação activa dos moçárabes da região a norte do Tejo, e que se estendia pelo menos até ao Mondego. Isto porque um exército cordovês, comandado pelo príncipe Hishâm, um dos filhos de al-Hakam I, dirigiu-se para o ocidente peninsular e extinguiu a revolta em Lisboa, tendo matado também o cabecilha Tumlus. De caminho para Galiza, para onde seguiu o mesmo exército em acção de razia, pacificou e submeteu toda a região entre Lisboa e Coimbra.     

      Ora Coimbra fora desde a época da conquista islâmica, a capital dessa região onde os cristãos mantinham a sua autonomia, mediante acordo. A punição dos moçárabes daquela região passou pela perda da autonomia, e pela passagem da mesma região à subordinação directa do poder islâmico de Córdova. Em consequência dessa mesma alteração de estatuto do espaço em causa, a capitalidade da região passou de Coimbra para Santarém. Nesta cidade o poder e o urbanismo islâmicos, instauraram-se a mando de al-Hakam I, pois sob ordem desse monarca foram lá construídos uma mesquita aljama e excelentes banhos públicos, e ainda procederam à organização dos mercados scalabitanos. 

      I. 7. 3. 4. A acção socio-cultural de al-Hakam I

    Apesar de ter ficado na História associado a uma memória de violência, ainda assim al-Hakam I procurou cumprir com a Mensagem do Alcorão. Além de ter feito construir mesquitas, criou ainda instituições de assistência para os doentes e os desprotegidos. Também ele poeta, deu início à corte literária cordovesa, depois famosa com o seu filho ‘Abd al-Rahmân II, tendo-se tornado o modelo das futuras cortes literárias da época das Taifas.

Bibliografia complementar aconselhada

  • Claude CAHEN, El Islam - I. Desde los orígenes haste el comienzo del Imperio otomano (trad.esp. J.M.Palao), Madrid, Siglo XXI , 1985
  • Bernard LEWIS, Os Árabes na História (trad.port. M.R.Quintela), Lisboa, Estampa, 1982
  • Martin LINGS, Le Prophète Muhammad - Sa vie d’après les sources lse plus anciennes (trd.franc. J.-L. Michon) Paris, Seuil, 1986
  • Robert MANTRAND, As Grandes Datas do Islão (trad.port.A.Moreira) Lisboa, Ed. Notícias, 1991
  • Dominique SOURDEL, O Islão (trad.port.M.Quintela), Mem Martins, Publ.Europa-América, [1980]

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